Povoamento da América e Pré-história brasileira

O conceito de pré-história, normalmente atribuído à “história humana ocorrida antes da invenção da escrita” se aplica também ao Brasil? Se seguirmos este princípio, então a pré-história brasileira durou até 1500, uma vez que, segundo sabemos, os moradores desta região estavam ainda num estágio (podemos afirmar) entre o Paleolítico e o Neolítico. Eram nômades, possuíam pouco desenvolvimento técnico e não tinham domínio da escrita. De fato, os historiadores normalmente consideram como Pré-história brasileira, o período ocorrido entre a chegadas dos primeiros grupos à região – há mais de 20 mil anos – até o desembarque de Pedro Álvares Cabral aqui em 1500 d.C., apesar de esta última data já fazer parte da Idade Moderna.

Ao contrário das sociedades ‘históricas’, as sociedades ‘pré-históricas’ não dispõem de fontes escritas para que possamos conhecê-las. Nesse sentido, a Arqueologia, ao estudar os vestígios dos povos pré-históricos, é a ciência  que mais contribui para o conhecimento sobre esses povos. A apresentação sobre as evidências arqueológicas como fontes do conhecimento sobre a Pré-história não se dissocia da apresentação da própria Arqueologia como área do conhecimento [1].

Queremos, neste artigo, destacar as hipóteses sobre a ocupação do continente, a diversidade cultural na época de Cabral e o etnocentrismo europeu implantado aos moradores conquistados.

Correntes migratórias: principais hipóteses

Estudiosos como historiadores e antropólogos falam da existência, em nosso continente, de cerca milhões de habitantes, quando Cristóvão Colombo, em nome da Espanha, aqui chegou em 1492. Apenas no Brasil, mais de mil nações indígenas foram encontradas por volta de 1500. Esses habitantes receberam a denominação genérica de índios, porque Colombo acreditava ter chegado às Índias, como era chamada a região do extremo oriente, na época.

Esses milhares de habitantes chegaram aqui como e quando?

Vejamos o mapa abaixo [2]:

As principais correntes migratórias que apontam para as possíveis chegada do homem ao nosso continente são:

  • a asiática: populações vindas da Ásia atravessaram o Estreito de Bering, ocupando a América do Norte.
==> Podemos esquematizar assim: da Ásia (origem) => chegada ao Estreito de Bering (congelado) => chegada ao Alasca => ocupação da América. (Veja Rota 1 acima)…
  • a australiana: populações vindas do Polo Sul atingiram a Patagônia, região sul de nosso continente.
==> Esquema: Austrália (origem) => Polo Sul (congelado) => chegada ao Sul da América…
  • a malaio-polinésia: populações originárias das ilhas da Polinésia teriam aproveitado a corrente marítima do Peru e navegado até nosso continente.
==>Esquema: da Ásia (origem) => Ilhas Polinésias => Oceano Pacífico => chegada ao Peru e ocupação da América.  (Veja Rota 2 acima) …
  • a esquimó: populações vinda do Polo Norte para a América do Norte.
==> Esquema: Europa (origem) => Ilhas do extremo norte => chegada à América.

 A teoria asiática, referente o povoamento da América a partir do Estreito de Bering,  é a mais aceita pelos estudiosos, embora, como vimos, outras hipóteses também são aceitas. Escavações arqueológicas com datações dão conta da presença humana em nosso continente entre cerca de 14 e 20 mil anos. No caso do Brasil, o fóssil Luzia, abaixo, foi datado como a presença humana há mais 11 mil anos. Mas outras fontes, como as de São Raimundo Nonato, por exemplo, sugerem datas anteriores a 11 mil anos.

Quando esses povos chegaram aqui?

Estudos apontam evidências da presença humana em nosso território (atual Brasil) há cerca de 11 mil e até 48 mil anos atrás, conforme descobertas arqueológicas em sítios como os dos estados do Piauí e de Minas Gerais.

Diversos estudos nos ajudam na compreensão do que somos – e de onde, e quando viemos – e são resultados de uma inter-relação de conhecimentos de diferentes áreas, chamado conhecimento interdisciplinar. Disciplinas como a Geografia, a Química, a Arte, a Antropologia, a História etc, mais do que ciências auxiliares umas das outras, estudadas em conjunto, fornecem importantes contribuições para a compreensão da Pré-história brasileira.

Contudo, como vemos abaixo, os trabalhos como os efetuados em São Raimundo Nonato e em Minas Gerais, por exemplo, e suas descobertas, são resultados, da Arqueologia. Neste sentido, podemos afirmar que a Arqueologia e a História, embora sejam áreas do conhecimento independentes, possibilitam intersecções interdisciplinares que assumem caráter complementar.

Em São Raimundo Nonato, Piauí, “… um grupo de arqueólogos liderados por Niède Guidon notificou a presença de facas, machados e fogueiras com cerca de 48 mil anos de existência. Entre as principais conclusões desses estudos, destaca-se a presença de comunidades coletivas que caçavam e utilizavam o fogo para protegerem-se e alimentarem-se.” [3]

Pintura rupestre encontrada em São Raimundo Nonato [4]

Na região de Lagoa Santa (MG), foi encontrado, em 1999, um crânio que, segundo os arqueólogos, trata-se de uma mulher de origem africana, que aqui viveu por volta de 11.500 anos. Por ter lançado luz sobre a possibilidade de novas descobertas, o crânio recebeu o nome de Luzia, e levanta suspeita de uma onda migratória da Oceania, responsável pela ocupação de nosso continente.

Luzia: à esquerda, o fóssil encontrado, e à direita a reconstrução do mesmo.

“Esse achado levou a verificar que o continente americano foi ocupado por quatro fluxos migratórios, desse modo, os três últimos eram compostos por populações de origem mongol com características genéticas comuns às tribos indígenas da atualidade. Em suma, essa descoberta detectou evidências de que antes da ocorrência de fluxos de mongóis houve a migração de não-mongóis, ou seja, homens com aspectos extremamente parecidos com os africanos e os aborígines da Austrália.” [5]

Portugueses X Ameríndios: interação ou etnocentrismo europeu:

Dois termos usados por antropólogos, sociólogos e historiadores, “aculturação” e “etnocentrismo”, exprimem bem o que aconteceu com nossos índios ou ameríndios (índios da América).

  • Aculturação: mudanças na cultura de um grupo social sob a influência de outro com que entra em contato.
  • Etnocentrismo: disposição habitual de julgar povos ou grupos estrangeiros pelos padrões e práticas de sua própria cultura ou grupo étnico.

Foi o que aconteceu com os índios depois que tiveram contato com o homem branco. Sofreram o processo de aculturação imposto pelos europeus e a sua pressão de homem branco e “civilizado”.

mais do que um processo de interação, o que houve quando do ‘contato’ foi um grande choque cultural que se reverteu em opressão, pelos europeus, dos grupos indígenas encontrados. A vida dos índios, antes da chegada dos europeus, pode vir associada à Pré-história (e o campo de abordagem dessa área no Brasil tem nesse fato sua delimitação), o que não é equivocado, mas é necessário ficar claro que se trata de um período de abrangência temporal muito maior.

Depois do choque, a aculturação…

Num outro momento, pretendemos escrever um pouco mais sobre a influência indígena em nossa cultura. Mas, para fazer esta relação entre passado e presente, vejamos um pouco sobre algumas características que diferenciam o índio pré-histórico do índio do Brasil atual.

As mudanças de cultura de um grupo social – no caso, os índios –, sob influência de outro grupo com quem entra em contato – que neste caso, é o homem branco –, são conhecidas como aculturação. E nesse processo de mais de 500 anos de história do Brasil, nossos índios adquiriram muitas características semelhantes aos do homem branco, e cooperam, parcialmente, para a formação do que chamados de povo brasileiro.

Observe parte da Carta de Caminha e o que ela menciona sobre os índios em 1500:

“… pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto… Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta” [6]

Vejamos estas duas imagens:

A primeira imagem [7] apresenta o índio brasileiro na época em que os portugueses aqui chegaram, com características semelhantes às descritas por Pero Vaz de Caminha, em sua carta, que se tornou o primeiro documento escrito sobre o Brasil, por isto, chamado de o Registro de Nascimento do Brasil.

Já na segunda imagem [8], inclusive feita para destacar a importância da tecnologia nos dias atuais, apresenta o índio moderno aculturado.

Podemos fazer um quadro comparativo da cultura indígena brasileira na Pré-história e no mundo contemporâneo, da seguinte forma:

Os índios na Pré-história:

Os índios no Brasil contemporâneo:
-    andavam nus;
-    alimentavam-se de caça, pesca, coleta;
-    viviam um vida simples e em grupos;
-    não conheciam tecnologia avançada;
-    eram normalmente politeístas;
-    buscavam curas nas ervas medicinais;
-    não se apegavam a bens materiais;
-    moravam-se em cabanas;
-    educação baseada na experiência dos pais;
-    usam roupas como os brancos;
-    usam-se pratos com receitas dos brancos;
-    vida sedentária/individualista…;
-    usam televisores, celulares, computadores…;
-    a maioria adora o Deus dos cristãos;
-    utilizam-se de remédios industrializados;
-    são, em sua maioria,  materialistas como os brancos;
-    muitos moram em residências fixas;
-    estudam em escolas, conjuntamente, com os brancos…
Os Sítios Arqueológicos como Patrimônio Cultural Brasileiro: A Constituição Federal afirma: “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tornados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem (…) os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.” [9]
“… entende-se por patrimônio cultural imaterial as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural.” [10]

Notas:

[1] Caderno do professor. História. Ensino Médio – 1ª série, Vol. 1. SEE-SP, 2014-217. P. 14.

[2] Texto e mapa adaptados de:

COSTA, Luís César Amand & MELLO, Leonel I. A. História do Brasil. São Paulo: Scipione, 1996. Página 26 (Mapa e texto). Como não foi possível inserir a imagem do livro do referido autor, inseri a imagem destacada, extraída de: http://tempodoshomens.blogspot.com.br/2011/05/o-povoamento-do-continente-americano.html. Acesso em 28/02/2013.

[3] SOUSA, Rainer. In: http://www.brasilescola.com/historiag/prehistoria-brasileira.htm. Acesso em 24/02/2013.

[4] Imagem disponível em: http://www.panoramio.com/user/98514/tags/Piaui?photo_page=3 Acesso em 10/03/2014.

[5] FREITAS, Eduardo de. In: http://www.brasilescola.com/brasil/prehistoria-no-brasil.htm. Acesso em 25/02/2013.

[6] Veja mais em: www.biblio.com.br/conteudo/perovazcaminha/carta.htm. Acesso em 28/02/2013.

[7] Disponível em: http://visitaaomuseu.blogspot.com.br/2009/11/desembarque-de-pedro-alvares-cabral-em.html. Acesso em 28022013.

[8] Disponível em: http://indioetecnologia.zip.net. Acesso em 28/02/2013.

[9] Constituição da República Federativa do Brasil/1988. Art. 216 (Introdução) e Art. 216, V.

[10] UNESCO, In http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/culture/world-heritage/cultural-heritage. Acesso em 1º/03/2013.

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Questões

1.  (Caderno do aluno, 2014-2017,  página 17, questão 1) A inter-relação de conhecimento de diferentes áreas na prática de determinado campo de estudos (Pré-história, por exemplo) é denominada:

a) multiculturalismo.      b) interdisciplinaridade.      c) interdiscursividade.      d) relatividade.

 

2.  (Idem, página 18, questão 2) “A Arqueologia é uma ciência auxiliar da História.” Sobre essa afirmação é correto considerar que:

a) está errada, pois a História é que é uma ciência auxiliar da Arqueologia.
b) está correta, pois a Arqueologia coleta artefatos e a História os interpreta.
c) está errada, pois a Arqueologia e a História são ciências independentes, mas que se conjugam interdisciplinarmente.
d) está errada, pois a História já auxiliou a Arqueologia, mas hoje isto já não ocorre.

 

3.  Com base no mapa e explicações acima, assinale a alternativa que NÃO se relaciona com as diversas hipóteses de origem do homem americano.

a)  O homem americano é Autóctone, ou seja, surgiu no próprio continente.
b)  O homem penetrou no continente americano pelo Estreito de Bering.
c)  O homem chegou à América em migrações esporádicas, navegando pelo Pacífico, vindo da Ásia, Polinésia e Oceania.
d)  Há vestígio da presença do homem no continente sul-americano, datada de 11.500 anos.

 

4.  (Caderno do aluno, página 24, questão 2) Quando os primeiros colonizadores portugueses chegaram à América, é correto afirmar que:

a)  havia uma cultura indígena muito homogênea em todo o território.
b)  havia uma única etnia indígena, na região costeira, que, posteriormente, difundiu-se para todo o território.
c)  havia diferentes populações indígenas de culturas muito diversificadas.
d)  os indígenas aqui encontrados eram culturalmente inferiores aos europeus.

 

5.  O atual Estado brasileiro, onde foi encontrado o fóssil “Luzia”… é:

a) Paraná.              b) Rio Grande do Sul.              c) Paraíba.              d) Minas Gerais.

 

6.  (Caderno do aluno, página 24, questão 3) Sobre vestígios arqueológicos, deixados por indígenas antes e depois da chegada dos europeus, pode-se afirmar que:

a)   tanto os vestígios anteriores quanto os posteriores ao contato entre os índios e os europeus, integram o patrimônio cultural brasileiro.
b)  não integram o patrimônio brasileiro, mas somente o patrimônio cultural indígena.
c)   só integram o patrimônio  cultural brasileiro aqueles que se referem ao período posterior ao contato entre os índios e os europeus.
d)  só integram o patrimônio cultural brasileiro aqueles que se referem ao período anterior ao contato entre os índios e os europeus.

 

7.  O processo de “mudanças na cultura de um grupo social sob a influência de outro com que entra em contato” chamamos de:

a) Etnocentrismo.             b) Aculturação.             c) Catequização.             d) Doutrinação.
 
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Confira suas respostas:

1. Letra b. Interdisciplinaridade: interlocução  - uma ciência colaborando com outra –  entre diferentes áreas do conhecimento.

2. Letra c. O mesmo conceito de interdisciplinaridade acima.

3 Letra a. A hipótese de que o homem americano é Autóctone, ou seja, surgiu no próprio continente, não encontra provas científicas. Até agora, o que temos são informações de que o homem saiu da África e da Ásia, migrando de lá para os outros continentes…

4. Letra c. O nome “índio”, foi aplicado genericamente, aos nossos nativos, mas na verdade, havia uma grande diversidade cultural em nosso território.

5. Letra d. O município de Lagoa Santa onde Luzia foi encontrada fica no estado de Minas Gerais.

6 Letra aA nossa Constituição define que as culturas indígenas, mesmo as anteriores ao contato com o homem branco, constituem “patrimônio imaterial brasileiro”.

7. Letra a. A imposição de uma cultura, dita superior, sobre outra, tida como inferior, é chamada de etnocentrismo. É o que ocorreu no contato do português com os nossos nativos… 

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alcides-amorim posted at 2013-2-28 Category: História | Tags:

12 Responses Leave a comment

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